sexta-feira, 28 de março de 2008

Unção com óleo

Tiago, uma das colunas da Causa de Deus em Jerusalém (Gal. 2.9), em sua epístola, capítulo 5, verso 14, orientava os cristãos dos seus dias a chamar os presbíteros da Igreja, no caso de doença, orar sobre a pessoa, ungindo-a com óleo. Esta passagem bíblica tem sido mal interpretada ao longo dos tempos. Um dos desvios de interpretação de unção, muito em voga hoje, é o sacramento da extrema unção, usado pela Igreja Católica Romana, ministrado às pessoas que estão para morrer.


Nos meios evangélicos, cresce hoje a prática de ungir doentes com óleo, como um ato carismático. Neste sentido, alguns líderes até exageram, vendendo óleo bento e fazendo deste ato uma deslavada exploração do povo, já tão sofrido com tantos enganos.


Qual é o ensino da Bíblia sobre unção? Qual é o verdadeiro sentido do texto de Tiago? O que o texto original, em que foi escrito o Novo Testamento quer realmente dizer? É o que nos propomos responder nesta mensagem.


Como a Bíblia explica o assunto


Como já vimos acima, há dois tipos principais de unção na Bíblia. O primeiro, é o da unção cerimonial. Esta é a unção formal de um Sacerdote ou de um Rei. Em Êxodo 28.41, temos as instruções para a consagração e unção do sacerdote Arão. Em 1 Samuel 16.3,12, temos a unção de Davi como Rei de Israel. A idéia desse tipo de unção é de separação e consagração, isto é, dedicação da pessoa a determinada tarefa. Derramado sobre a cabeça da pessoa, o óleo cobre o corpo. A idéia é de revestimento de poder e autoridade. A unção desse tipo é sempre ordenada por Deus. O verbo grego correspondente ao hebraico nesse tipo de unção é "Chrio", uma palavra cognata de Christós, que deu origem ao nome Cristo. Portanto, a palavra "Cristo", significa: O Ungido, o Separado por Deus para um ministério especial. Por isso, o nome dEle é Jesus, o Cristo.


Um outro tipo de unção, é o terapêutico, curativo. Há dois exemplos muito claros sobre isso na Bíblia. O primeiro, está no profeta Isaías 1.6. Diz assim: "Desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, e inchaços, e chagas podres, não espremidas, nem ligadas, nem nenhuma delas amolecida com óleo". Era muito comum o uso de óleo para inchaços e feridas de diversos tipos; machucados, cortados e qualquer tipo de ferimento.


O segundo texto bíblico muito interessante neste sentido, é o do Bom Samaritano, registrado em Lucas 10.34, em que o viajante amigo, encontrando aquele homem ferido, derramou óleo sobre os ferimentos. Era um expediente terapêutico, curativo; era o uso do óleo como remédio (Luc. 10.25-37).


E é exatamente no sentido terapêutico, de tratamento com remédio, que Tiago usa o verbo "ungir". O verbo "ungir" aqui em Tiago 5.14, é "Aleipho", que quer dizer "friccionar, aplicar sobre, esfregar". É totalmente diferente da unção cerimonial para consagrar sacerdotes e reis. Portanto, não tem qualquer sentido carismático, na acepção de ter graça em si mesmo.


Curioso observar, ainda, é que, do verbo "aleipho", surgem outros cognatos, no mesmo, sentido. Por exemplo: "Exaleipho", quer dizer massagear, fazer massagens. Era o expediente usado nos atletas. Um atleta machucado ou contundido, era massageado com óleo. Daí, vem o substantivo "Aleiptes", que era o massagista, tinha a função de massagear atletas machucados. Hoje eles passam Gelol e coisas semelhantes.


Toda esta argumentação exegética pode ser encontrada no livro Conselheiro Capaz, de Jay e. Adms, pp. 11/112. Esta é a melhor explicação que se pode encontrar sobre o assunto.


O que quer dizer, então, Tiago com a expressão "ungir com óleo"? Ele quer dizer que se deve usar o óleo como remédio, acompanhado de oração. E sobre o uso de remédio na Bíblia, o assunto é pacífico. Cito apenas dois exemplos: o primeiro é do Rei Ezequias, registrado em 2 Reis 20.1-7. Doente, o Rei recebeu notícia da parte de Deus, pelo profeta Isaías, de que morreria. Ele virou-se para o canto da cama e orou fervorosamente ao Senhor. O Senhor atendeu a oração do Rei. Isaías ainda estava no pátio do palácio, quando a Palavra do Senhor veio a ele, ordenando-lhe que anunciasse ao Rei que lhe eram concedidos mais 15 anos de vida. E, curiosamente, o profeta ordenou que se pusesse uma pasta de figos sobre a chaga. E o Rei sarou. Aqui está claro, portanto, o uso de remédio, acompanhado de oração e da vontade de Deus.


Um segundo exemplo, está em 1 Tim. 5.23, onde Paulo recomenda a Timóteo que não beba água pura, mas com um pouco de vinho, por causa de suas freqüentes dores de estômago. Era remédio também.


Conclusão


Há mais algumas considerações muito importantes sobre o assunto. Primeiramente, é sobre os tipos de doenças daquele tempo. Nota-se que o homem ultrajado na estrada de Jericó e atendido pelo Bom Samaritano, estava com ferimentos e hematomas, como resultado de pancadas. O remédio indicado naquele tempo era, portanto, o óleo. Ezequias, conforme o texto nos informa, estava com uma chaga, um tipo de ferida inflamada. Não sabemos se havia certos tipos de doenças que temos hoje. Para as doenças daquele tempo, havia um remédio muito comum: o óleo de oliva, que ainda hoje é muito rico em propriedades curativas.


Um famoso escritor, Sholem Asch, diz que Tiago pertencera, antes de ser cristão, à seita dos Essênios. Era uma seita que vivia nos desertos e muito cuidadosa com o corpo, com a higiene e com a saúde. E Tiago era uma espécie de farmacêutico. Andava sempre com um frasco de óleo pendurado no cinturão, para aplicar remédios nas pessoas doentes. Convertido ao cristianismo, naturalmente passou a somar a oração da fé ao uso do remédio.


A segunda consideração é que os oficiais da igreja deveriam aplicar o óleo. Notamos que Tiago transportava para o cristianismo a idéia do Velho Testamento sobre o papel do líder religioso no tratamento das doenças. No Velho Testamento, o sacerdote era quem cuidava das doenças. Aliás, este costume já vinha das religiões pagãs, em que os sacerdotes eram uma espécie de médico. Notamos pelo Pentateuco, por exemplo, que cabia ao sacerdote examinar os problemas de lepra.


Desta forma, Tiago passava para os oficiais da igreja o papel de ministrar o remédio. No entanto, não há dúvida de que o ato de ministrar o óleo era para fins de remédio, que deveria ser acompanhado pela oração da fé. Não era um ato meramente carismático. Era um ato terapêutico, medicinal.


A terceira consideração é que Jesus nunca mandou ungir enfermos com óleo. Ele recomendou, isto sim, que os apóstolos enviados curassem os enfermos. E é certo que, pelo menos uma vez, (Marcos 6.13) se tem notícia de que os apóstolos ungiam enfermos com óleo e os curavam. Evidentemente, eles o faziam dentro dos costumes correntes entre os judeus. Mas não encontramos esta recomendação específica de Jesus. Vamos ver Jesus envolvido com outro tipo de unção, que é o de bálsamo, artigo de perfumaria; vamos vê-lo falando da unção como ato de dignidade para um visitante, mas não vamos encontrá-lo falando de unção de enfermos.


Por outro lado, dos escritores do Novo Testamento, só Tiago faz esta recomendação. Como já explicamos, isto fazia parte da experiência de Tiago como um tipo de enfermeiro ou farmacêutico.


Cremos, portanto, que não há fundamento bíblico em se usar óleo e, muito menos, vender óleo bento para curar enfermidades. Hoje, Deus nos deixou maravilhosos remédios e recursos médicos para as muitas doenças novas que vão surgindo. E, com oração, fé e aplicação de remédios segundo a vontade de Deus, estaremos cumprindo os ensinos da Palavra de Deus.


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