sexta-feira, 16 de maio de 2008

A Cruz antiga e a nova

Uma crítica ao pragmatismo entre os evangélicos de hoje


Totalmente sem aviso e desapercebida, uma nova cruz surgiu nos círculos populares evangélicos nos tempos modernos. Parece-se com a antiga cruz, mas é diferente: as semelhanças são superficiais as diferenças, fundamentais.


Desta nova cruz brotou uma nova filosofia da vida cristã, e dessa nova filosofia proveio uma nova técnica evangélica - um novo tipo de reunião e uma nova espécie de pregação. Esta nova evangelização emprega a mesma linguagem da antiga, mas seu conteúdo não é o mesmo e a sua ênfase não é como antes.


A cruz antiga não fazia barganhas com o mundo. Para a jactanciosa carne de Adão, ela significava o fim da jornada. Punha em execução a sentença imposta pela lei do Sinai. A nova cruz não se opõe à raça humana ao contrário, é uma companheira amigável e, se corretamente entendida, é fonte de oceanos de boa e limpa diversão e de inocente prazer. Ela deixa Adão viver sem interferência. A motivação da sua vida não sofre mudança o seu prazer continua sendo a razão do seu viver, só que agora ele se deleita em cantar coros e em ver películas (filmes) religiosas, em vez de cantar canções obscenas e beber bebidas alcoólicas fortes. A tônica ainda está no prazer, embora agora a diversão esteja num superior plano moral, se não intelectual.


A nova cruz estimula uma abordagem evangelística nova e inteiramente diversa. O pregador não exige renúncia da velha vida para que se possa receber a nova. Ele não prega contrastes prega similaridades. Procura caminho para o interesse do público mostrando que o cristianismo não faz exigências desagradáveis ao invés disso, oferece a mesma coisa que o mundo oferece, só que num nível mais alto. Seja o que for que o mundo enlouquecido pelo pecado reclame para si no momento, com inteligência se demonstra que exatamente isso o evangelho oferece, só que o produto religioso é melhor.


A nova cruz não destrói o pecador redireciona-o. Aparelha-o para um modo de viver mais limpo e mais belo e poupa o seu respeito próprio. Àquele que é auto-afirmativo, ela diz: "Venha e afirme-se por Cristo". Ao egoísta diz: "Venha e exalte-se no Senhor". Ao que procura viva emoção diz: "Venha e goze a vibrante emoção do companheirismo cristão". A mensagem cristã sofre torção na direção da moda em voga, para que se torne aceitável ao público.


A filosofia que está por trás desse tipo de coisa pode ser sincera, mas sua sinceridade não a faz menos falsa. É falsa porque é cega. Falta-lhe por completo todo o significado da cruz.


A antiga cruz é um símbolo de morte. Ela representa o abrupto e violento fim do ser humano. Na época dos romanos, o homem que tomava sua cruz e se punha a caminho já tinha dito adeus a seus amigos. Não voltaria. Estava saindo para o término de tudo. A cruz não fazia acordo, não modificava nada e nada poupava eliminava o homem, completamente e para sempre. Não procurava manter boas relações com a sua vítima. Feria rude e brutalmente, e quando tinha terminado o seu trabalho, o homem já não existia.


A raça de Adão está sob sentença de morte. Não há comutação nem fuga. Deus não pode aprovar nenhum fruto do pecado, por mais inocente ou belo que pareça aos olhos dos homens. Deus salva o indivíduo liquidando-o e, depois, ressuscitando-o para uma vida nova.


A evangelização que traça paralelos amistosos entre os caminhos de Deus e caminhos dos homens é falsa para a Bíblia e cruel para as almas de seus ouvintes. A fé cristã não é paralela ao mundo secciona-o. Quando vimos a Cristo, não elevamos a nossa velha vida a um plano mais alto deixamo-la aos pés da cruz. O grão de trigo tem de cair no solo e morrer.


É preciso que nós, que pregamos o Evangelho, não nos consideremos como agentes de relações públicas enviados para estabelecer boa vontade entre Cristo e o mundo. É preciso que não nos imaginemos comissionados para tornar Cristo aceitável ao grande comércio, à imprensa, ao mundo dos esportes ou à educação moderna. Não somos diplomatas, mas profetas, e a nossa mensagem não é um acordo, mas um ultimato.


Deus oferece vida, não porém uma velha vida melhorada. A vida que Ele oferece é vida posterior à morte. É vida que se mantém sempre no lado oposto ao da cruz. Quem quiser possui-la, terá de passar sob a vara. Terá de repudiar-se a si próprio e aquiescer-se à justa sentença de Deus que o condena.


Que significa isso para o indivíduo, para o condenado que desejar achar vida em Cristo Jesus? Como poderá esta teologia ser transferida para a vida? Simplesmente, é preciso que ele se arrependa e creia. É preciso que ele abandone os seus pecados e então prossiga e abandone a si mesmo. Que não cubra nada. Que não procure fazer acordo com Deus, mas incline a cabeça para o golpe do severo desprazer de Deus e reconheça que merece morrer.


Feito isso, que ele contemple com singela confiança o Senhor ressurreto, e do Senhor lhe virão vida, renascimento, purificação e poder. A cruz que deu cabo a vida terrena de Jesus agora põe fim ao pecador e o poder que levantou Cristo dentre os mortos agora o ressuscita para uma nova vida ao lado de Cristo.


A qualquer que faça objeção a isso ou que o considere meramente como uma estreita e particular visão da verdade, permita-me dizer que Deus fixou Seu caminho de aprovação nesta mensagem, desde os dias de Paulo até ao presente. Quer exposto nestas exatas palavras, quer não, tem sido este o conteúdo de toda pregação que tem trazido vida e poder ao mundo através dos séculos. Os místicos, os reformadores, os avivalistas, tem posto aqui a sua ênfase, e sinais, maravilhas e poderosas operações do Espírito Santo deram testemunho de aprovação de Deus.


Ousaremos nós, os herdeiros desse legado de poder, adulterar a verdade? Ousaremos apagar com os nossos grosseiros lápis as linhas impressas ou alterar o modelo que nos foi mostrado no Monte? Não o permita Deus. Preguemos a velha cruz e conheceremos o antigo poder.


A. W. Tozer

terça-feira, 13 de maio de 2008

Uma nova reforma?

"O que está acontecendo agora é uma nova Reforma", disse há pouco tempo um dos pregadores desse neopentecostalismo que já tomou para si várias Igrejas batistas, expressando o seu entusiasmo pelo que considerava "mudanças e conquistas" conseguidas pela sua "Igreja" e outras, especialmente no que tange ao sucesso com as multidões e com a mídia. Mas ele está enganado. O que estamos testemunhando com esse frenesi em busca das almas, mas não por causa da paixão por elas, temendo-se que possam se perder e ir para o inferno, salvo em algumas exceções, mas sim pela paixão por outras realidades, pode ser bem descrito num trecho de um trabalho recentemente apresentado por dois mestrandos de teologia do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, Elimário F. Silva e Henrique R de Araújo no qual abordam a questão do pós-modernismo e neopentecostalismo, trecho que eu tomo a liberdade de reproduzir.


"As Mega-Igrejas hoje são comuns. Dois, cinco, dez mil membros são encontrados em algumas delas e como em um grande mercado multinacional as maiores têm absorvido as menores...Os best-sellers importados são sempre os privilegiados assim como os autores estrangeiros. O que importa não é o que é bom, mas o que é vendável, ocorrendo o mesmo com os CDS, pois não importa a letra. O que importa é se é o "batidão" da hora...A Bíblia deixou de ser a Palavra de Deus para ser um livro a mais de estudo citado de vez em quando nas aulas de teologia.
A fama e o sucesso tornaram-se os objetivos dos pastores e das Igrejas. A Igreja não é mais a finalidade do obreiro, mas a Igreja tornou-se um meio (geralmente financeiro) para que os pastores atinjam seus fins. Livros, fitas, cds, dvds, são reproduzidos aos milhares com o dinheiro das Igrejas nos templos que, por sinal, tornaram-se palcos de auditório com iluminação, gruas, cinegrafistas e maquiadores por todos os lados, enquanto os congressos e eventos são multiplicados cada vez mais. O que era o acontecimento do ano tornou-se semanal. A arrecadação para mover toda a máquina precisa ser cada vez maior. Outdoors, back-lights, home-pages, mídia televisiva, spots radiofônicos, banners, e tudo isso custa dinheiro, em geral muito dinheiro, de forma que os organizadores de evento representam uma profissão cada vez mais lucrativa no meio gospel.
"


Obviamente que sem nos opor ao uso do contemporâneo para a divulgação do Evangelho (e essa não foi a intenção dos autores do trecho acima citado), preocupa-nos ver o que está acontecendo, e os resultados advindos disso - uma massa de gente se dizendo "crente em Jesus" mas sem compromisso com a cruz (que aliás tem sido substituída pela "estrela de Davi" em várias dessas novas "denominações) e que sem conhecimento bíblico permite ser colocadas sob o jugo da Lei que já foi abolida por Cristo (sete semanas, derrubada disso ou daquilo), levadas ao "sacrifício" que não é aquele do "culto racional" pedido pelo Apóstolo.


Não, isto nada tem a ver com a Reforma e, por isso não pode ser considerada "uma nova Reforma". Isto é o retrocesso dela, a negação dela porque até as "indulgências" contra as quais se levantaram os reformadores, estão hoje sendo repetidas de uma outra forma, mas com a mesma finalidade - "vender bênçãos". Dê "50" para DEUS te dar "100" e por aí em diante. A "velha idolatria" que Lutero dizia "precisa ser tirada primeiro do coração para então ser tirada de diante dos olhos", está presente nesses movimentos porque "idolatrar" é por algo ou alguém no lugar de DEUS, de JESUS CRISTO e quando as pessoas são instadas a fazer isso ou aquilo durante esse ou aquele tempo como as "tais correntes" e, em alguns casos até usarem objetos como "ramo de arruda", "rosas abençoadas", etc., inevitavelmente são levadas a idolatrar o que estão fazendo ou o que estão usando, porque passam a depender daquilo e quando acreditam que conseguiram "a tal benção",acabam dizendo que a conseguiram porque fizeram assim e assim e a misericórdia de DEUS que até mencionam, é tão somente um artifício.


A nova reforma, na verdade, tem de ser a restauração dos postulados da primeira: A Graça somente, A Fé somente, a Escritura somente e o sacerdócio do próprio crente, somente. A Graça de DEUS que por causa da nossa natureza pecaminosa que nos condena à morte eterna, se manifestou no envio de JESUS CRISTO para morrer de forma aviltante numa cruz nos livrando da condenação imposta por nossa natureza pecaminosa, A Fé em JESUS CRISTO apenas como único e suficiente SALVADOR o que faz Dele nosso SENHOR ABSOLUTO e impede que a Fé se torne em crendice, a Escritura Sagrada como a palavra final para as nossas práticas e a Competência da Alma em chegar a Deus sem a intermediação de qualquer nome que não JESUS CRISTO, é que precisa mais do que nunca ser pregado. Estes são os princípios do Evangelho restaurados pela Reforma, mas que estão outra vez desaparecendo.


Pr. Valdemir - IB. do Parque São Basílio

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Um alerta aos Batistas:

Abandono da Sã Doutrina - Sinal do fim dos Tempos

"Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina..." II Tm 4:3a


Guerras, rumores de guerra, fomes, pestes, terremotos, perseguição, falta de amor, sinais no sol, na lua e nas estrelas (Mt 24). Todos estes sinais são citados pelos pregadores atuais para demonstrar que estamos caminhando a passos largos para o fim dos tempos. Porém, um sinal bíblico de elevada importância tem sido esquecido na lista citada: o abandono da sã doutrina pelas igrejas do Senhor Jesus.


O apóstolo Paulo diz que "virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas" (II Tm 4:3, 4). Qual tempo de abandono da sã doutrina será este? Veja que ele diz claramente na carta enviada anteriormente que este tempo futuro é o "fim dos tempos, onde alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios" (I Tm 4:1). Ou seja, é a época em que se aproxima o fim do mundo, o dia do juízo. O abandono da sã doutrina pelas igrejas está em perfeita consonância com o que Jesus Cristo disse acerca dos sinais citados em Mateus 24:24: "Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos".


A palavra doutrina é um termo grego que significa ensino. Sã doutrina, então, é o ensino verdadeiro de Jesus e dos apóstolos. A palavra grega didache aparece traduzida cerca de 30 vezes como doutrina para o nosso português, didaskalia aparece traduzida 21 vezes, heterodidaskaleo aparece duas e ainda em Hebreus 6:1 encontramos o termo grego logos também traduzido como doutrina. Tantas vezes citada pelos autores do Novo Testamento, é de se estranhar como hoje se fala tão pouco neste tema em nossas igrejas. Há muitos congressos de adoração, discipulado, missões, evangelismo, etc., mas de doutrina... Estes congressos são essenciais para a vida do cristão, porém a doutrina bíblica tem sido muito pouco citada em nosso meio, dando lugar, muitas vezes, a teologia liberal, projetos de crescimento de igrejas a qualquer custo, manipulação psicológica, eventos sociais, pregação antropocêntrica, culto de entretenimento, festival de danças, emocionalismo exacerbado e por aí adiante.


Para aqueles que ainda não abandonaram a sã doutrina e para aqueles que estão desejosos de voltar-se para ela, segue as palavras do apóstolo, aconselhando um jovem pastor: "Tu, porém tens seguido a minha doutrina... Mas os homens maus e enganadores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste..." (II Tm 3:10,13,14). O apóstolo João também nos adverte: "Todo aquele que prevarica, e não persevera na doutrina de Cristo, não tem a Deus... Se alguém vem ter convosco, e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tão pouco o saudeis. Porque quem o saúda tem parte nas suas más obras" (III Jo 9-11).


Batistas, perseveremos na sã doutrina!


Leonardo de Souza Guimarães

Diácono da Igreja Batista Central de Italva, RJ

Fonte: ADIBERJ

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Inspiração, revelação e iluminação

Inspiração, revelação e iluminação - Estes três conceitos caminham bem juntos, mantendo uma estreita ligação entre si, e são necessários para uma melhor compreensão do ensino das Escrituras. A declaração de W. C. Taylor, missionário batista pioneiro no Brasil, irá nos ajudar a entender a relação destes conceitos entre si e o sentido de cada um:

"Três doutrinas vão sempre juntas, na inteligente apreciação do valor da Escritura: revelação, inspiração e iluminação. Para o autor (do texto bíblico) veio a Revelação; para a Escritura que ele transmite, veio a Inspiração; para o leitor, que busca saber por meio dela a verdade e a vontade de Deus, virá, nas condições de espiritualidade, a Iluminação. Os profetas e os apóstolos foram Movidos. Suas Escrituras foram Inspiradas. Nós somos Iluminados".

O Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho, em sua apostila Teologia Sistemática I, define:

Inspiração - O termo vem do latim inspiro, que significa "soprar para dentro". "Inspiração" significa que Deus soprou para dentro do autor bíblico a Sua verdade. O conteúdo das Escrituras não é uma especulação ou uma descoberta humana após uma longa e cansativa pesquisa filosófica. Mas seja qual for o método que o autor usou, ou o que Deus usou com o autor, isto é inspiração. Foi Deus quem colocou na mente e no coração do escritor bíblico a capacidade de apreender e de registrar Sua Palavra. Assim dizemos que a Bíblia nasceu no coração e na mente de Deus. E Ele soprou Suas idéias para o homem. Isto é inspiração.

Na realidade, o que é inspirado não é o escritor humano, mas sim o texto bíblico; "Toda Escritura é inspirada". O termo "inspirada" (theopneustos), de 2 Tm 3.16, expressa mais do que qualquer outra coisa, que o "produto final" de todo o processo - a Escritura, é o que possui a qualidade de ser Palavra de Deus e, portanto, autoridade divina. Os escritores humanos foram "conduzidos" (pheromenoi) pelo Espírito Santo para registrarem o texto "soprado por Deus", o qual possui a autoridade de Palavra de Deus e cuja prerrogativa é ser obedecido (2 Pe 1.21, cf. 1.19).

Revelação - O termo significa "tirar o véu" e mostrar algo que estava encoberto. Neste sentido, "revelação" é o conteúdo registrado pela inspiração. A relação entre os dois termos pode ser definida assim: a inspiração é o automóvel e a revelação é o passageiro. Quando dizemos que "Deus se revelou" estamos dizendo que Ele tirou o véu que O encobria diante dos homens e Se deu a conhecer à humanidade. O propósito da Bíblia é trazer a auto-revelação de Deus aos homens. Ele não revelou o futuro ao homem, nem fatos e questões pessoais. O propósito da Bíblia é falar de Deus. Ele revelou-Se a Si mesmo. Já sabemos que Jesus é o clímax da revelação de Deus: "Ninguém jamais viu a Deus. O Deus unigênito, que está no seio do Pai, esse o deu a conhecer" (Jo 1.18). Jesus é a maior revelação de Deus e a finalidade da revelação é tornar Deus conhecido dos homens.

"Revelação e inspiração estão estreitamente ligadas, mas distinguem-se em aspectos da verdade bíblica. Nas Escrituras, a inspiração e a revelação, se combinam para assegurar que a Bíblia é a Palavra de Deus, revelando com exatidão fatos sobre o Senhor. A revelação foi o ato da divina comunicação aos escritores da Escritura. Inspiração foi a obra de Deus em guiar e dirigir os escritores da Bíblia para que eles escrevessem a verdade absoluta, mesmo quando ela estivesse além do seu entendimento. A inspiração foi limitada à Bíblia em si, e é mais adequado dizer que as Escrituras foram inspiradas do que dizer que os escritores foram inspirados" (Lewis Chafer).

Iluminação - Esta palavra significa "fazer a luz brilhar". Não somos inspirados simplesmente porque não recebemos a revelação, mas somos iluminados para conhecê-la: "sendo iluminados os olhos do vosso coração, para que saibais qual seja a esperança da vossa vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos" (Ef 1.18). A iluminação é para que os crentes descubram as grandes verdades reveladas por Deus na Sua Palavra e a aplicação para as suas vidas. É através da iluminação que o Espírito Santo concede aos cristãos a capacidade intelectual de compreenderem o que foi inspirado e revelado nas Escrituras. É impossível entendermos a situação de pecado sem intervenção do Espírito Santo, que produz luz em nossa consciência. A Iluminação acontece porque o homem natural não pode discerni-la (1 Co 2.14); a obra de Cristo na cruz faz sentido (1 Co 1.18); e o Espírito Santo ensina (Jo 14.26).

Gilsa Fernandes Pancote
(PIB S.J. Imbassaí - Maricá - RJ)

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terça-feira, 6 de maio de 2008

Há realmente poder em nossas palavras?

Há alguns dias entrei numa livraria evangélica. Olhando as novidades, vi, estupefato, que as obras que estavam à vista eram aquelas que falavam sobre o poder inerente da língua. Como: "Há poder em suas palavras", "Zoe: a própria vida de Deus", "A sua saúde depende do que você fala", etc.


Conversando com a atendente perguntei-la sobre os livros que estavam mais escondidos, como por exemplo, os livros de teologia, de referências, de história da Igreja, etc. Ela respondeu-me que são livros que não sai das estantes, a não ser que algum pastor, professor ou seminaristas venham a adquiri-los. E disse-me que mais de 90% das pessoas que freqüentam a livraria só compram livros dessa "nova teologia".


É lamentável que isto seja um reflexo da falta de conhecimento da Igreja hodierna. As pessoas não querem mais pesquisar a fundo o que se vende ou se escuta por ai. Só querem bênçãos, sem se importar com o abençoador. Querem as coisas de Deus, embora não pensem em conhecê-Lo. Buscam o pão da terra, mas rejeitam o pão do céu. Nestas poucas linhas tentarei demonstrar que apesar de estar impregnada na Igreja como um todo, a confissão positiva é uma falha grave da chamada "teologia moderna".


Definindo os Termos


O que é o Movimento do Pensamento Positivo? É a crença em que o pensamento de uma pessoa é o fator primordial em relação a suas circunstâncias. Só em ter pensamentos positivos todas as influências e circunstâncias negativas serão vencidas.


E o Movimento de Confissão Positiva? É a versão cristianizada do pensamento positivo que essencialmente substitui a fé em Deus pela habilidade de ter fé em si mesmo. O simples fato de confessar positivamente o que se crê faz com que o desejo confessado aconteça. (1)


O verbo decretar está sendo conjugado dia-a-dia pelas mais variadas denominações. Não são poucas as pessoas que usam o jargão evangélico: "Tá decretado!" Não faz muito tempo às famosas frases de efeito no meio evangélico eram outras bem menos danosas para a fé cristã, como, por exemplo: "O sangue de Cristo tem poder" - nem sempre usada no contexto correto -, "Tá amarrado!" etc.


Mas, qual o motivo da frase "tá decretado" - e suas variações - estar errada? Não temos que reivindicar os nossos direitos junto ao Pai? Não somos filhos do Rei? As nossas palavras não possuem poder?


Para responder, sinceramente, a estas e outras perguntas, gostaria de dar algumas explicações do por quê não creio na assim chamada "confissão positiva".


Devemos também lembrar-nos de que o termo "decreto" pertence somente ao Senhor de Toda Glória, como bem falou Rubens Cartaxo Junior: " Os Decretos eternos de Deus é exclusivo de Sua pessoa o qual fez desde a Eternidade - Sl 33.11; Is 14.26-27; 46.9-10; Dn 4.34-35; Mt 10.29-30; Lc 22.22; At 2.23; 4.27-28; 17.26; Rm 4.18; 8.18-30; I Co 2.7; Ef 1.11; 2.10; II Tm 1.8-9; I Pe 1.18-20. Estes textos demonstram que Deus tem um propósito, ou um plano, para o Universo que criou. Este plano existe antes da criação. É um plano sábio, de acordo com o conselho de Deus. Ninguém pode anulá-lo, pois é Eterno". (2)


A "confissão positiva" é parte da "teologia da prosperidade", tão divulgada e recebida pela Igreja brasileira. Esta doutrina vem sendo divulgada há alguns anos no Brasil, especialmente por R. R. Soares que é o responsável pela divulgação dos livros de Kenneth E. Hagin, principal expositor desta doutrina. Hagin diz que recebeu a fórmula da fé diretamente de Jesus, e mandou escrever de 1 a 4 esta "fórmula". Com ela, diz, pode-se conseguir tudo. Consiste em:


1)  "Diga a coisa" , positiva ou negativamente, tudo depende do indivíduo;


2)  "Faça a coisa" , o que nós fazemos irá determinar a nossa vitória;


3)  "Receba a coisa", a fé irá dinamizar a ação e Deus tem que responder, pois está preso a "leis espirituais";


4)  "Conte a coisa", para que outras pessoas possam crer. Deve-se usar palavras como: decretar, exigir, reivindicar, declarar, determinar, e não se pode pedir "se for da tua vontade", pois isso destrói a fé;


Não são poucos os líderes que adotam e pregam essa doutrina. Como disse o próprio R. R. Soares em uma entrevista para a Revista Eclésia, quando perguntado se ele era adepto da teologia da prosperidade, ele respondeu:


"...Agora, eu prego a prosperidade. Prefiro mil vezes pregar teologia chamada da prosperidade do que teologia do pecado, da mentira, da derrota, do sofrimento... A teologia da prosperidade, pelo que se fala por aí, eu bato palmas. Não creio na miséria. Essa história é conversa de derrotados. São tudo um bando de fracassados, cujas igrejas são um verdadeiro fracasso". (3)


Para muitos, ganhar e ter dinheiro viraram sinônimos de vitória. E o que mais nos impressiona é a suposta "base bíblica" para defender seus devaneios. Um exemplo clássico é o texto de Filipenses 4:13 - que virou um moto na boca dos cristãos hodiernos - que diz: "Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece". Só que os adeptos da teologia da prosperidade ignoram por completo o contexto da passagem. Veja o que diz os versos 11 e 12: "Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter em abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade".


Em outras palavras Paulo diz-nos que poderia passar por qualquer situação - fome, abatimento, necessidade, ter de tudo e não ter nada - pelo simples fato de que a sua força, em momentos de tribulação ou não, era Jesus Cristo.


Esse movimento pensa que a língua e a mente têm um poder que pode criar as circunstâncias ao nosso redor. Não é mais do que uma "parapsicologia evangélica". Muitas das coisas que os "doutores da fé" dizem são clones dos ensinamentos do poder da mente, muito explorado pelo Dr. Joseph Murphy anos atrás. Ele escreveu alguns livros como: "Como usar as leis da mente", "Conversando com Deus", "As grandes verdades da Bíblia", "A magia do poder extra-sensorial", "O poder do subconsciente", dentre outros.


Vou apenas citar um trecho do livro "A paz interior", do Dr. Murphy para vermos que se parece muito com os "doutores da fé". Comentando João 1:5-7 ele diz: "As trevas referem-se à ignorância ou falta de conhecimento da maneira como a mente funciona. Estamos nas trevas quando não sabemos que somos o que pensamos e sentimos. O homem está num estado condicionado do Não-condicionado, com todas as qualidades, atributos e potenciais de Deus. O homem está aqui para descobrir quem é. Não é um autônomo. Tem a capacidade de pensar de duas maneiras: positivamente e negativamente. Quando começa a descobrir que o bem e o mal que experimenta são decorrentes exclusivamente da ação de sua própria mente, começa a despertar do senso de escravidão e limitação ao mundo exterior. Sem conhecer as leis da mente , o homem não sabe como produzir seu desejo". (4)


Vejamos ainda o que Jorge Linhares diz em seu livro: "Bênção e Maldição", onde mostra um Deus dependente do homem, este é o Evangelho da Confissão Positiva e do Evangelho da Maldição - "Palavras produzem bênção... [ou] maldição... Palavras negativas... dão lugar a opressão demoníaca... ...Palavras positivas (confissão positiva), amorosas, de fé, de confiança em Deus, liberam o poder divino para desfazer a opressão..." (5)


Suposta Base Bíblica da Confissão Positiva


Existem algumas supostas bases bíblicas que os defensores da confissão Positiva usam para defender esta doutrina, vamos dar apenas três passagens para não tomar muito tempo, no entanto, as demais passagens seguem basicamente esta linha de interpretação.


Marcos 11:22-23 - "E Jesus, respondendo, disse-lhe: Tende fé em Deus; Porque em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, tudo o que disser lhe será feito".


Os defensores apregoam que o verso acima ensina que devemos ter a fé de Deus, ou seja, a confissão que gera as coisas. Declarar a existência de coisas que do nada virão a existir, podendo assim criar a realidade que quisermos.


O Pr. Jorge Issao Noda explica muito bem esta passagem em seu livro: "Somos deuses?", ele diz; "Copeland editou uma Bíblia de referência onde este texto tem uma leitura alternativa: 'Tende a fé de Deus'. Capps, Price, Hagin, são unânimes nesta interpretação. Hagin afirma, inclusive, que ela está de acordo com a visão dos eruditos em grego. O texto diz: echete (tende) pistin (fé) theou (de Deus). De Deus? Então Deus tem fé! Sendo assim, os mestres da Fé têm razão. Os cristãos, através dos séculos, estiveram interpretando erroneamente este texto. Xeque-mate? De maneira nenhuma. Robertson, um dos maiores eruditos em grego, afirma que o texto deve ser traduzido para 'tende fé em Deus' porque se trata de um genitivo objetivo. Neste caso Deus não é o sujeito da fé (fé de Deus), mas o objeto da fé (fé em Deus). Os eruditos em grego maciçamente concordam com Robertson, contrariando a afirmação de Hagin". (6)


Temos que ter fé em Deus, essa nossa fé em Deus é que faz com que os montes que enfrentamos a cada dia sejam superados, não pelo poder inerente a fé, mas no poder inerente do doador da fé, ou seja, o nosso Deus. Sem essa fé não venceremos, mas com Ele somos mais do que vencedores.


Provérbios 6:2 - "E te deixaste enredar pelas próprias palavras; e te prendeste nas palavras da tua boca".


Este texto, dizem, significa que o poder de não passar por problemas está na língua. No entanto, Salomão está falando da pessoa que ficou por fiador de outro, como expressa o versículo anterior: "Filho meu, se ficasse por fiador do teu companheiro, se deste a tua mão ao estranho, e te deixaste enredar pelas próprias palavras; e te prendeste nas palavras da tua boca". (grifo nosso)


A Bíblia de Genebra explica o termo "enredado": "Pedir dinheiro emprestado é uma coisa, mas prover segurança para outrem é caminhar para dentro de uma armadilha feita pelo próprio indivíduo". (7)


Provérbios 18:21 - "A morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto".


Este versículo explica que devemos ter o cuidado de que nossas palavras não venham a nos trazer situações embaraçosas. Temos que saber como dizer as coisas, pois certamente colheremos situações que são causadas por nós mesmos. No entanto, este verso não dá margem para dizer que são as palavras em si que nos dá o controle das circunstâncias da nossa vida. São situações específicas e não o destino do ser humano que é traçado pela verbalização dos nossos desejos interiores.


Para uma compreensão melhor do que eu quero dizer, deixe-me mostrar-lhes algumas implicações práticas sobre a Confissão Positiva. Se você crer nesta doutrina, então terá que desconsiderar aquilo que eu irei falar a seguir. Mas se você quer ponderar o assunto, leia com atenção as frases seguintes.


Implicações Práticas de se Crê na Doutrina da Confissão Positiva


Citaremos algumas implicações preocupantes que comprovam a periculosidade desta doutrina para os cristãos menos desavisados:


1 - A Doutrina da confissão positiva aniquila a Soberania de Deus.


Deus não depende das palavras dos homens para agir. Deus é e sempre será Soberano. Soberania é o atributo pelo qual Deus possui completa autoridade sobre todas as coisas criadas, determinando-lhe o fim que desejar (Gn 14:19; Ne 9:6; Ex 18:11; Dt 10:14-17; I Cr 29:11; II Cr 20:6; Jr 27:5; At 17:24-26; Jd 4; Sl 22:28; 47:2,3,8; 50:10-12; 95:3-5; 135:5; 145:11-13; Ap.19:6).


Já imaginou um Deus que depende do homem para agir? Com certeza Ele entraria em enrascada se estivesse sujeito às oscilações da vontade humana. Eu mesmo não queria um Deus desse tipo. Prefiro o Deus da Bíblia que "tudo faz como lhe apraz". (Sl 115:3).


2 - A Doutrina da confissão positiva enaltece o homem.


Quando entendemos biblicamente quem na realidade é o homem, ficamos sobremaneira conscientes de nossas falhas e limitações. Quanto mais a confissão Positiva enaltece o homem, mais eu vejo o seu erro. A Bíblia nos mostra claramente que o homem nada é comparado ao Senhor nosso Deus.


A Bíblia retrata como na verdade é o homem (Ezequiel 16:4-5; Is 1:6 Rm 3:10-18; Sal 51:5; 58:3; Is 48:8; João 5:40; Rm 1:28; 3:11, 18; II Pedro 3:5; Rm 8:8; Jr 13:23; João 6:44-45; Rm 8:6-8; Ef 4:18; Rm 1:21; Jr 17:9).


3 - A Doutrina da confissão positiva dá mais valor a palavra falada do que às Escrituras.


Onde fica a luta de reformadores como Lutero? Muitos foram aqueles que lutaram para que hoje tivéssemos a Palavra de Deus em nossas mãos. Muito sangue foi derramado para que pudéssemos ler às Escrituras sem a interferência da vontade humana. Onde fica o princípio da "Sola Scriptura"? A Bíblia deixou de ser relevante para as nossas vidas? Creio firmemente que não e os textos bíblicos confirmam isso - Sl 19:7-11; Sl 119; Jo 5:39; Rm 15:4; II Tm 3:16-17.


Amado irmão, se precisássemos apenas falar e declarar para que as circunstâncias adversas fossem resolvidas e vivêssemos rica e abundantemente sem problemas, então porquê a Bíblia dá tanta ênfase a suportar o sofrimento? Se Paulo tivesse o poder de parar de sofrer decretando, então como foi que ele teve que ficar com o espinho na carne? Deixemos de incoerência e vivamos a verdade da Palavra do Senhor!


"Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte". II Co 12:10.


4 - A Doutrina da confissão positiva dá um conceito simplista da fé cristã.


O evangelho de Cristo é o evangelho da cruz, da renúncia, do arrependimento, do nascer de novo. O cristianismo de hoje é um cristianismo sem cruz, sem sacrifícios. Gosto de dizer que é o "evangelho boa vida", evangelho "não-faça-nada-e-ganhe-tudo". Esse não é o evangelho de Cristo. Basta vermos alguns textos para comprovar o que estou dizendo - Jo 3; Mt 16:24; Mc 8:34; Lc 9:23; Gl 6:12; Mt 3:8; Lc 5:32; II Pd 3:9, etc.

5 - A Doutrina da confissão positiva não tem o respaldo na História da Igreja.


Fico imaginando Lutero ou Calvino orando da seguinte maneira: "Eu decreto que a partir de hoje o papado vai morrer, reivindico que todos os inimigos do evangelho sejam transportados para o inferno. Declaro explicitamente que não mais haverá mais heresias e que os inimigos da cruz de Cristo vão desaparecer da face da terra. Está decretado em nome de Jesus!"


Essa oração nunca aconteceu. Dentro da História da Igreja não se tem notícia de coisas absurdas como essa. Será que todos os grandes homens de Deus estavam enganados a respeito de sua fé? Quando examinamos biografias diversas dos homens de Deus, seja de quem for, notamos uma única nota coerente em todos: Verdadeira humildade. Todos foram humildes em afirmar a soberania de Deus e a fraqueza do homem. Agora, o homem quer mandar em Deus? Meus amados somos servos e não senhores. E basta para nós sermos apenas servos.


Conclusão: Estude a Palavra e não fique por ai repetindo, como papagaio, aquilo que você escuta na televisão. É muito fácil pregar heresias. É muito prático dizer um "abracadabra" evangélico para que tudo se resolva. Difícil é estudar com afinco às Escrituras, passar horas debruçado sobre as páginas santas desse livro. Buscar de Deus o verdadeiro sentido da vida, entender às verdades centrais desse livro, no entanto, é salutar.


Como a Igreja do Senhor está precisando de bereanos hoje em dia. Você quer ser um deles? Oxalá que sim! Deus o abençoe.


SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER

Pr. Antônio Pereira da Costa Júnior 
Co-Pastor da 1ª. Igreja Congregacional em Sta Cruz do Capibaribe - PE


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Notas:
(1) A Sedução do Cristianismo, pg 268.
(2) Retirado da Internet - http://br.geocities.com/ipnatal
(3) Revista Eclésia, Ano V, Nº 67, Junho de 2001, pg 26.
(4) A paz Interior, pg 14-15, 8 a . edição, Record, Rio de Janeiro - 1979.
(5) Linhares, Pg. 16, 18.
(6) Somos Deuses? P. 28
(7) Bíblia de Genebra, p.732


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sábado, 3 de maio de 2008

O falar em línguas extático não se iniciou com Cristãos

Pequeno Histórico

O falar em línguas extático não se iniciou com Cristãos, na verdade é uma prática muito mais antiga. A primeira referência histórica que se tem de uma fala religiosa frenética remonta a 1.100 a.C. através do relato de Wenamon, onde um jovem adorador do deus Amon, após ter oferecido sacrifícios ao seu deus, foi possesso por ele e iniciou a falar freneticamente. Esta ação, segundo este relato, durou toda uma noite.

Platão demonstrou conhecer o falar em línguas extático ao descrevê-lo em vários de seus diálogos. No Phaedrus ele tratou de famílias que estavam participando de santas orações, ritos e pronunciamentos inspirados. Os participantes eram indivíduos que ao serem possessos perdiam o juízo (perdiam o controle das faculdades mentais, porém não ocorria enlouquecimento). A participação nestes eventos segundo o relato de Platão chegava a produzir a cura física de doenças nos adoradores. A essa "loucura" religiosa ele chamou de dádiva divina. Também afirmava que a profetiza de Delphos e a sacerdotisa de Dodona, quando fora de si, podiam exercer grande influência benéfica sobre certos indivíduos, porém quase nenhuma quando em domínio de suas faculdades mentais. Relatou fatos semelhantes no Ion e no Timaeus. Neste último, relata que quando um homem recebe a palavra inspirada, sua inteligência é dominada ou possessa, e essa pessoa passa a não poder se lembrar do que falou, sendo que estas falas são muitas vezes acompanhadas de visões, as quais a pessoa possessa também não pode julgar, necessitando assim de intérpretes ou profetas para exporem as declarações daquele que tem a fala "inspirada".

Já Vergílio relata que a sacerdotisa Sibelina adquiriu seu falar extático em visita a uma caverna onde os ventos encanados produziam sons estranhos que pareciam, às vezes, música.

Já a Pitonisa de Delfos é descrita por Crisóstomo, desta forma: "...diz-se então que essa mesma Pitonisa, sendo uma fêmea, às vezes senta-se escarranchada na trípode de Apolo, e, por conseguinte, o espírito mau, subindo debaixo e entrando na parte baixa do seu corpo, enche de loucura a mulher, e ela, com o cabelo desgrenhado, começa a tocar o bacanal e a espumar pela boca, e assim, estando num frenesi, fala as palavras de sua loucura".

A história não registra entre Cristãos a ocorrência de um falar em línguas extático antes do início do século XX, quando do início do pentecostalismo. Porém, em alguns grupos pequenos e isolados, os quais se diziam cristãos, houve a ocorrência de um falar em línguas extático. Vejamos alguns destes que alegaram ter tido este "dom":

1. Século 19
a) Irvingitas: Sua principal característica era a de criar novas revelações além das presentes na Bíblia Sagrada.

2. Século 18
a) Ann Lee e seus discípulos (Shakers): Falavam em línguas enquanto dançavam...nus!!
b) Jansenitas: Falaram em línguas ao dançarem sobre o túmulo de Jansen...também nus!!

3. Século 17
a) Os Quacres, diziam que a experiência devia julgar a Bíblia e não o contrário, há alguns relatos de que houve glossolalia entre eles.

4. Século 2
a) Montanuenses: também pregavam a contínua revelação e duas classes de crentes, uma superior e outra inferior; Montano, seu líder, alegava ser o próprio Espírito Santo.

Pelo exemplo da postura doutrinária e moral destes que alegaram através dos tempos serem cristãos, e terem falado línguas enquanto em êxtase, podemos afirmar seguramente que não se tratava de verdadeiros Cristãos, pois desdenhavam da palavra de Deus como Sua máxima revelação.

O falar em línguas extático entrou para o Cristianismo, através do movimento pentecostal iniciado por Spurling, Tomlinson e Parham, no início do século XX. Charles Parham foi tido como o pai do pentecostalismo moderno, tendo criado o Lar de Curas Betel e o Colégio Bíblico Betel, o qual ensinava que a evidência do batismo com o Espírito Santo seria sem dúvida a glossolalia. Deste ponto em diante se desenvolveu o movimento pentecostal, perseguindo o batismo com o Espírito Santo e sua evidência visível, a glossolalia. Em 1º de janeiro de 1901, Agnes Ozman, uma das alunas do colégio falou em línguas após ter buscado freneticamente pelo batismo com o Espírito Santo. Ela foi a primeira pessoa dita Cristã a demonstrar a glossolalia.

O movimento pentecostal, teve um crescimento gradual, mas lento, e somente surgiu como um movimento de grandes proporções a partir de meados do século XX. E daí até aos dias de hoje, os distintivos pentecostais, que antes estiveram restritos aos meios pentecostais, começaram a invadir as igrejas tradicionais, e muitas estão sucumbindo a algumas das práticas pentecostais.

Walter Andrade Campelo

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